Janaina Paschoal: “Bolsonaro prometeu pôr o Brasil acima de tudo, mas põe os filhos”

Deputada estadual pelo PSL em São Paulo, Janaina foi eleita com votação recorde e como apoiadora da candidatura e dos valores de Jair Bolsonaro. Hoje, um ano e meio de mandato depois, revê as convicções que a levaram para a política e se estabelece como crítica insone do chefe do Executivo e de seus filhos

NATACHA CORTÊZ

Janaina Paschoal tem se sentido isolada na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). “Vai ver é um problema meu, entende?”, tenta justificar a deputada mais votada, em níveis estadual e federal, na história do país. O sentimento é familiar. A acompanha desde criança, foi presente quando aluna na faculdade de direito e motivo de seu afastamento do quadro docente da USP, onde era professora do Departamento de Direito Penal antes de se candidatar à política, em 2018. Desafeita a grupos e representações, diz que gosta de andar sozinha, ter pensamento independente e ir contra a corrente. Talvez por isso, foi a primeira desertora entre os bolsonaristas. Os valores à direita propagados pelo Presidente da República, ela jura, seguem com ela, “só não dá para confiar mais no que ele anda fazendo, é muita loucura, muita desorganização”. E continua: “Apoiei [Jair] Bolsonaro, foi uma tentativa minha. Era um governo que poderia dar certo, mas ele fica apegado aos filhos e ao radicalismo de apoiadores. Insiste num pessoal, uns românticos sem substância. Prometeu pôr o Brasil acima de tudo, mas põe os filhos, as ideias”.

Janaina Paschoal, deputada estadual pelo PSL em São Paulo, em seu gabinete na Alesp  (Foto: Carine Wallauer)
Janaina Paschoal, deputada estadual pelo PSL em São Paulo, em seu gabinete na Alesp (Foto: Carine Wallauer)

Este é o segundo encontro da deputada estadual com Marie Claire. Em março de 2019, prestes a assumir seu primeiro mandato, ela nos recebeu no escritório de advocacia que dividia com duas irmãs. Na época, falou do impeachment de Dilma Rousseff, do qual é autora, e de como o episódio enveredou sua vida para a política. Também demonstrou afinidades com as propostas de governo de Jair Bolsonaro.

Na entrevista a seguir, concedida em seu gabinete na Alesp, na terceira semana de junho, Janaina repercute suas posições de um ano e meio atrás. Ainda faz críticas à gestão do governador de São Paulo, João Doria (PSDB); comenta a reabertura econômica no estado e sua própria experiência com a Covid-19 – ela foi infectada com a doença no início de março. Por fim, dá sua teoria sobre o que chama de “inteligência por trás do caos e bagunça que é o atual governo” e explica que até então não há, do ponto de vista técnico jurídico, motivos para um impeachment presidencial.

JANAINA PASCHOAL Tem uma frase que venho repetindo que me dá até medo: o povo tem os governantes que merece. Quando aparece uma pessoa honesta que trabalha feito um cão, que dá satisfações do que está fazendo, essa pessoa é maltratada. Ela é tão agredida de todos os lados que até parece um pedido para largar.

MC Essa pessoa é a senhora?
JP 
Não que esteja fazendo queixa, porque não gosto de drama. Mas sim, fiquei surpresa com a agressividade e o autoritarismo do eleitor. Não é que a pessoa cobre coerência e honestidade, ela cobra que você trabalhe pra ela. A pessoa vem aqui querendo que eu resolva problemas pessoais. Se é eleitor esquerdista, não quer ouvir os crimes que a esquerda cometeu nesses treze anos. Se é direitista, não quer ver o que está sendo feito de errado agora. Então, a pessoa que fala a verdade é uma indigesta. Talvez o povo brasileiro não esteja preparado para quem diz a verdade.

JP Tenho mesmo me sentindo isolada e vai ver que é um problema meu, entende? [risos] Esse meu pensamento muito independente. Não tenho grupo. Respeito todo mundo, me dou bem com as pessoas, mas não tem ninguém que eu siga de olhos fechados. Talvez a chatice seja da minha parte. A solidão também, uma característica minha. Desde criança sou assim. Não tinha um grupo, não frequentava festas. Na faculdade, não frequentava. Sempre fui do trabalho, do estudo.

MC Mas devem haver diferenças ou similaridades entre se sentir isolada na USP e se sentir isolada na política. A senhora destacaria alguma delas?
JP 
Na USP as pessoas são sofisticadas. Então, te isolam de uma maneira mais cruel do que na política, onde as pessoas são mais simples. Mais simples no raciocínio, na capacidade. Horrível falar isso, parece até que estou… Mas são, né? Mais simples. Qualquer pessoa pode ser eleita. E não é qualquer um que chega à docência, não é todo mundo que consegue um mestrado. Então as maldades da política são menos más. As maldades da academia são muito más, te aniquilam. Isso não significa que vou abandonar a academia e passar a vida na política.

JP Eu gosto do meu trabalho técnico jurídico na Assembleia. Adoro pegar os projetos, ver como posso melhorar, tentar explicar para os colegas o que dá pra melhorar, que é um pouquinho o trabalho de professor.

MC Sente falta de dar aula?
JP 
Se você reparar, uso o plenário praticamente todo dia. Então, é uma mini aula. Porque pego um projeto e vou explicar. Ou pego alguma coisa que está andando em Brasília e vou explicar. Oriento colegas nos projetos deles. Que é um pouco do que eu mais gostava de fazer na USP, orientação de tese.

Janaina faz críticas à gestão do governador de São Paulo, João Doria (PSDB); comenta a reabertura econômica no estado e sua própria experiência com a Covid-19 - ela foi infectada com a doença no início (Foto: Carine Wallauer)
Janaina faz críticas à gestão do governador de São Paulo, João Doria (PSDB); comenta a reabertura econômica no estado e sua própria experiência com a Covid-19 – ela foi infectada com a doença no início (Foto: Carine Wallauer)

MC Naquela nossa primeira entrevista, a senhora expressou apoio e esperança no governo de Jair Bolsonaro, que iniciava seu primeiro ano de mandato. Se arrepende disso?
JP 
Não me arrependo porque ali existia uma necessidade de se fazer uma escolha. Fico rememorando as hipóteses que eu teria no primeiro turno [eleições presidenciais de 2018]. O [Geraldo] Alckmin é PSDB e não posso votar nessa outra face do PT só que mais sofisticada. O Álvaro [Dias] tem potencial, mas olha o que fez: se candidatou a presidente do Senado e recuou. Mostra uma falta de coragem de enfrentar as guerras necessárias. Se tivéssemos um Álvaro na presidência do Senado, a situação seria outra. Ele tem muito mais bagagem do que o senador [Davi] Alcolumbre. Um senador com menos bagagem acaba fazendo mais acordos e ficando mais na mão dos outros. Apoiei o Bolsonaro sim, foi uma tentativa minha. Acho que ele ainda teria condições de recuperar o governo.

JP Uso teria porque ele insiste num pessoal que até podem ser pessoas com boas intenções, românticas, mas são pessoas sem condições de substância.

MC Me dê um exemplo de uma pessoa romântica.
JP 
Pega o [ex] ministro da Educação. Ele é um romântico que queria prender todo mundo, os criminosos; que quer aniquilar as esquerdas. Sofreu as perseguições que sofri –  é professor universitário também. Então, acho que ele não digeriu, entendeu? E isso é péssimo, chegar ao poder sem digerir.

MC A senhora tem a mesma teoria sobre o presidente, isso de mágoas do passado não digeridas, e a usa para justificar comportamentos dele.
JP 
Eles não digeriram! Quando você vai subindo na vida, tem que se esforçar para digerir. Seja por meio das terapias ou das religiões. Para você se livrar das mágoas e dos ódios. Porque se você não digerir, vai usar o poder para perseguir. E isso não vai prejudicar os seus inimigos, vai te prejudicar. Eu vejo isso no presidente, nos filhos do presidente. E de maneira muito característica no ex-ministro da Educação. Aliás, não vejo nenhum crime nas frases que ele falou. São apenas muito inadequadas, sobretudo para um ministro. No mais, é uma pessoa sem condições nenhuma de ocupar o cargo que ocupava.

JP A figura do presidente tem que ter carisma e respaldo da população. Se puder ter conteúdo, melhor. Tem que ter a humildade de escolher bons quadros e delegar. E a gente tem percebido que o presidente tem muita dificuldade para fazer isso. Na época da campanha, ele dizia que ia fazer, como ainda está fazendo com o Paulo Guedes – que a gente não sabe até quando vai. Se você parar para pensar, todo o embate com o [Sergio] Moro não tem nenhum conteúdo criminal. Nem da parte dele, nem da parte do [ex-] ministro, que só cobrou do presidente o que o presidente prometeu para ele e para a população, que era administrar sua pasta. Vejo com clareza que seria um governo que poderia dar certo, mas Bolsonaro fica apegado aos filhos e ao radicalismo de alguns apoiadores. Essa coisa doente com Olavo de Carvalho. O Olavo tem uma obra respeitável, mas abandonou o Brasil, não apoiou grandes reformas… Era contra o impeachment, defendia a desobediência civil. A crítica que fez a mim na época era a de que eu, com o pedido de impeachment, estava legitimando o Congresso Nacional que para ele já não tinha legitimidade. Isso de querer fechar Congresso e Supremo já era plano do Olavo de Carvalho. Então, esse pessoal que, entre aspas, diz apoiar o Bolsonaro, é o pessoal que tenta seguir Olavo sem ter lido a obra de Olavo. E está dando no que está dando.

JP O Eduardo [Bolsonaro]. A Sara [Winter], a própria deputada Carla [Zambelli]. Então, na verdade, não é um grupo bolsonarista. É um grupo olavista que está usando o presidente para tentar se alavancar ou implementar uma pauta que não é dele, mas de Olavo. E o presidente… Não sei se não enxerga ou se é muito dominado pelos filhos. De repente tem aí uma dinâmica familiar, uma culpa que, como pai, ele tem que compensar.

MC Teria um conselho ao presidente em relação a isso?
JP 
Que cumpra a promessa de levar quadros técnicos para os ministérios. Nada impede que eleja um ministro da Educação conservador, mais à direita. Esses dias vi uma entrevista do ex-ministro da Educação de Portugal, que fez uma revolução. Tirou as matérias construtivistas em que as crianças ficam refletindo sobre a vida e colocou matérias duras. Português, matemática, física, química. Sou super partidária disso. E acreditava que era isso que o ministro da Educação de Bolsonaro faria. Mas ele não fez nada disso, só ficava falando que queria acabar com a esquerda.

MC A senhora apoia uma nova candidatura de Bolsonaro em 22?
JP 
[longo silêncio] A princípio, não. Porque ele não está se mostrando capaz. Não consegue se impor com os próprios filhos. Por que não coloca aqueles meninos para cuidar dos próprios mandatos?!

JP Cheguei a conversar sobre isso com o ministro [Gustavo] Bebianno antes dele falecer. Passa na minha cabeça, e é louco, sei que é, que Eduardo quer derrubar o pai para poder se apresentar como alternativa em 22, com o discurso do golpe. O Eduardo tem muita influência sobre o [deputado estadual] Gil Diniz, sobre o [deputado estadual] Douglas Garcia. Sobre o Edson Salomão, que é chefe de gabinete do Douglas. Sobre a Carla Zambelli. Ele tem uma liderança sobre eles. Foi para o exterior, visitou líderes. Tudo isso me parece mais uma dinâmica que atende a Eduardo do que ao pai. A lei eleitoral impede que o filho se candidate. Mas, se o pai não estiver no cargo, pode. Pense: o discurso do golpe é um baita discurso para o PT. Esse discurso também está sendo usado pelos bolsonaristas desde o início do governo. É um discurso que tende a uma candidatura em 22 que vai se mostrar como golpeada também. Um drama. Será que esse menino não está ajudando nesse processo de derrubada do pai? “Olha aí, cercearam meu pai, que quase morreu pelo país”, e aí ele aparece mais jovem, mais forte, numa versão atualizada do pai destruído pelo golpe? Eu ouso, né?

JP Disse: “Imagina, o menino ama aquele pai”. Mas é que não precisa deixar de amar para fazer o que imaginei.saiba mais

MC Em maio, a senhora disse à Folha de S. Paulo que Bolsonaro poderia renunciar, já que sob seu ponto de vista técnico jurídico não haveria crimes. Ainda defende isso?
JP 
E vou dizer o que?! É muita loucura, muita confusão. Como o povo vai aguentar isso por mais dois anos? Como o povo vai aguentar isso no meio de uma pandemia e, depois, com as sequelas dela?

Janaina foi eleita em 2018, com votação recorde e como apoiadora da candidatura e dos valores de Jair Bolsonaro (Foto: Carine Wallauer)
Janaina foi eleita em 2018, com votação recorde e como apoiadora da candidatura e dos valores de Jair Bolsonaro (Foto: Carine Wallauer)

MC Há uma tentativa de união de esquerdas e outras frentes, inclusive bolsonaristas arrependidos, para uma oposição mais forte em relação ao presidente. A senhora foi convidada?
JP 
Recebi convites. Mas não vou falar nomes. Estão querendo criar um grupo grande de várias correntes para pedir a saída de Bolsonaro. Como fiz o discurso aqui porque fiquei indignada com a postura dele da gripezinha em relação à Covid-19, entraram em contato comigo para eu assinar manifesto. O que me chamou atenção é que muitas pessoas, mesmo com todos os crimes do PT, nunca apoiaram o impeachment, diziam que impeachment é golpe, me chamaram de golpista, me perseguiram… Essas pessoas vêm atrás da minha assinatura agora. Dei um passo atrás e pensei: vou observar. Significa que amanhã, se acontecer algo mais grave, não vou apoiar? Não é isso. Significa que acho que não há, do ponto de vista técnico jurídico, motivo para impeachment até então. E significa também que esse grupo de muitas correntes não me parece coeso ou coerente.

JP Esse abrigo dado pelo advogado [Frederick Wassef], a depender das investigações, pode prejudicar o presidente. Seria importante entender de onde partiu essa estapafúrdia ideia e por qual razão. O senador Flávio ajudaria muito se renunciasse e cuidasse da própria defesa, deixando o pai governar. No que tange ao caso Queiroz, minha dor é constatar que os outros deputados listados pelo COAF estão livres, leves e soltos. Mas não vejo perseguição, penso que todos deveriam sofrer investigações rigorosas.

MC Como o suposto abrigo dado por Frederick Wassef a Queiroz poderia prejudicar o presidente?
JP
 Realmente não sei. Precisamos aguardar os esclarecimentos desse misterioso capítulo.

MC E sob o ponto de vista ético e moral? Ao seu ver, como fica a reputação do presidente?
JP 
Também acho importante esperar. E se essas pessoas fizeram tudo à revelia dele, para ‘ajudar’? Nunca vi tanta ajuda que só atrapalha! São piores que os aloprados do PT! É assustador!

MC A senhora fala como se o presidente fosse à parte disso tudo, inclusive dos filhos e amigos. Acredita que ele seja uma vítima? Tem semelhança com Dilma nesse ponto?
JP 
Eu realmente não sei! Com relação a Dilma, a instrução do processo de impeachment mostrou que ela tinha conhecimento. Ele, ainda tenho dúvidas. Por isso, estou aguardando as apurações. Mas penso que ele precisa afastar esse pessoal mais radical e deixar o filho responder pelo que tem que responder.

JP Não seria. Contra o PT, ninguém tinha coragem de agir. Alguém precisava fazer alguma coisa. Contra Bolsonaro, haverá uma fila. [risos]

MC Por que não? Qual é o receio?
JP 
Veja, o processo de impeachment teve um custo muito elevado na minha vida, na vida da minha família. Ainda hoje sofro ataques, perseguições, ameaças. Ninguém tinha coragem de enfrentar o PT, que dominava os formadores de opinião e ainda domina. Se surgir um crime de responsabilidade consistente, sobrarão pessoas para pedir o impeachment de Bolsonaro.

MC Sobre sua história com a Covid-19, quando a senhora foi diagnosticada e quão grave foi seu estado? Chegou a ser internada?
JP 
Trabalhei até dia 19 de março na Assembleia. Já estava me sentindo estranha, com paladar e olfato alterados. Pensei: preciso me isolar. Para você ter uma ideia, no começo, passei os dias trancada na varanda. Coloquei um colchonete desses de ginástica e fiquei lá igual a um cachorro [risos]. Daí, como não ia dar para dormir lá, fui para um canto da sala e ali fiquei morando por 14 dias. Só que eu precisava limpar a casa – para deixar claro, liberei a moça que trabalha comigo e continuei pagando ela integralmente -, cozinhar e então pus aquelas máscaras cirúrgicas e andava com um pano com amoníaco e ia passando por onde ia. Fui piorando. Sentia a batida do coração diferente, uma fraqueza muito grande… Dor de garganta e ouvido. Mas sou o tipo de criatura que precisa estar morrendo para parar. No meio dessa situação, lavei todas as janelas, fiz todas as sessões virtuais. Mesmo no hospital, internada, fiz sessão. Desliguei a câmera para não verem que estava internada. Fiz o PCR duas vezes e deu negativo. Mas quando fizeram tomografia, o médico explicou que eu estava com as laterais dos pulmões tomadas. Disseram que pelo diagnóstico era Covid. Acredito que só piorei significantemente porque demorei a tratar.

JP Fui a primeira deputada a brigar com o governador por entender que ele estava demorando a tomar medidas. Sou do tipo que acha que o Carnaval deveria ter sido cancelado. Tanto é que, quando ele enfim decidiu fechar, dei 100% de apoio. Minha grande decepção com o governo Doria na pandemia é a falta de transparência em relação às contratações. A contratação dos respiradores, por exemplo, tá toda estranha. Quero entender qual é a relação do governador com a China. Quando você olha o processo, vê que foi a tal da São Paulo Invest que indicou a empresa. Parece que essa São Paulo Invest tem escritório em Xangai e o governador vive indo para lá. Pergunto: pode uma empresa de fomento fazer uma indicação e o governo contratar? Vou seguir apurando isso. Depois, estou preocupadíssima com essa parceria que ele fez com outra empresa chinesa – não porque é chinesa, vamos deixar isso claro antes que falem que tenho algum preconceito. Fizeram algum chamamento para que várias empresas apresentassem propostas? Qual foi o critério? É o mesmo que elegeu a empresa que “forneceu”, entre aspas claro, os respiradores por 500 milhões de reais? Então, quero os detalhes. Saber se essa empresa está sendo paga, quanto estão pagando e com que critério. Oxford também está fazendo pesquisas para uma vacina. Por que o governo não fez parceria com Oxford? Segundo ponto: por que vai testar nos brasileiros e não nos chineses? E o que mais me assusta é que a imprensa está batendo tanto na cloroquina, e a cloroquina bem ou mal é um remédio que existe há 70 anos, mas estão com esse chamego todo com a parceria do Doria. É muita iniquidade no tratamento. Quando os petistas diziam que o PSDB era blindado, eu achava que exageravam, mas estou vendo que deve ser mesmo.

Este é o segundo encontro da deputada estadual com Marie Claire. Em março de 2019, prestes a assumir seu primeiro mandato, ela nos recebeu no escritório de advocacia que dividia com duas irmãs. Na época, falou do impeachment de Dilma Rousseff (Foto: Carine Wallauer)
Este é o segundo encontro da deputada estadual com Marie Claire. Em março de 2019, prestes a assumir seu primeiro mandato, ela nos recebeu no escritório de advocacia que dividia com duas irmãs. Na época, falou do impeachment de Dilma Rousseff (Foto: Carine Wallauer)

MC Como tem sido o trabalho na Assembleia durante a pandemia? Vocês tiveram reduções, 40% na verba de gabinete e 30% nos próprios salários. Isso afetou de alguma forma a atuação da senhora?
JP 
Por incrível que pareça, estamos trabalhando mais na pandemia do que fora dela. As sessões, quando presenciais, ocorriam às terças, quartas e quintas. Agora, como todos teoricamente estão em casa, têm acontecido a qualquer dia e horário. Confesso que gostaria que esse sistema online seguisse. Ele agiliza os processos e dá possibilidade dos colegas que moram no interior participarem muito mais da vida da Assembleia. Sou observadora e percebi que colegas que quase nunca compareciam aos plenários presenciais agora estão em todos os virtuais. Se esse sistema ficasse, me sentiria mais confortável para me candidatar para Brasília em 2022. E outra coisa: não é apenas por essa questão de mobilidade que me toca, é a economia. Pensa no que se economiza com passagem, hospedagem… Essa experiência do trabalho remoto é importante pra gente quebrar preconceitos. Quanto às reduções, não gasto nem 5% da verba que tenho disponível. Uma coisa importante que precisa ser esclarecida: o dinheiro não é entregue para o deputado. O deputado gasta e pede reembolso. Não sei como conseguem gastar 33 mil reais. Raramente gasto R$ 500, compro folha sulfite e material de escritório. E fui completamente a favor da redução de salário para deputado.

JP O isolamento social não se presta para um processo contínuo. Ele serve para você organizar o sistema de saúde. E em São Paulo isso ocorreu. Você pode concordar ou não com as estratégias. Eu, por exemplo, não teria feito hospital de campanha. Teria aberto mais leitos nos hospitais existentes. Porque aí seria um investimento que ficaria. Fazer o quê? Decidiram por isso. Democracia é isso, nem sempre sua ideia é a que prevalece. Agora, tenho recebido relatos de gente muito pequena, não de grandes empresários, mas de micro que estão indo para a rua da amargura. Aquela pessoa que já tinha perdido o emprego, vendeu o carro, abriu uma lojinha e agora não consegue pagar nenhuma conta. São muitos relatos. De chorar.

MC Neste um ano e meio de mandato a senhora protocolou alguns projetos de lei direcionados às mulheres. Tem uma pela universalização do absorvente menstrual, um para que mulheres que passam por mastectomia possam ter acompanhantes no pós-cirúrgico, um para ensinar defesa pessoal à meninas nas escolas, entre outros. De onde vieram as ideias para eles? A senhora se encontra com movimentos de mulheres, por exemplo?
JP 
Cada projeto veio de uma história de mulher. Não me encontro com movimentos porque não sou procurada por eles, mas meu gabinete está aberto. Das promessas de campanha, estavam a luta pras meninas e a livre escolha do parto cirúrgico. A vida do parlamentar é rica de novidades. Esses projetos nascem de pleitos da sociedade. Uma orientanda minha, Bianca Cesário, é que me deu a ideia do da menstruação mostrando um documentário sobre o tema. Ela mesma vem de uma família pobre, de mãe merendeira, e me relatou que teve problemas em ir para a escola porque lhe faltou absorvente. Eu tenho preocupação com escola e em manter as meninas na escola. Aí preparei o PL e apresentei para a deputada Delegada Graciela (PL), presidente da comissão da mulher. O da mastectomia nasce de uma professora de uma assessora minha que fez a cirurgia no SUS e passou muita fome e sede. Porque a comida chegava, as coitadas das enfermeiras não davam conta de atender todo mundo, e ela era negligenciada. Por não conseguir, e nem poder, mexer o braço, ficava ali, abandonada. Essa mulher me mandou uma mensagem contando isso e dizendo que gostaria que nenhuma mulher passasse por fome e sede num momento como aquele.

JP Tenho criticado a atuação da moça, que não tem ajudado o governo. Fico até cismada se é apoiadora mesmo. Quando falavam de ataque, de explosivo, eu queria ver isso. Mas o Jornal Nacional mostrou que foram fogos de artifício. Não teve ataque, não sob o ponto de vista de lei de segurança nacional. Se o ministro [Alexandre de Moraes] se sente ameaçado, tem que representar como vítima para a Procuradoria Geral da República e instaurar um inquérito na primeira instância para investigar a moça. Você não pode banalizar o direito penal. Ele tem que ter proporcionalidade. Se você chama uma manifestação maluca em frente ao Supremo de terrorismo, que nome você vai dar para grupos verdadeiramente extremistas que jogam mísseis, bombas e degolam pessoas? Estou preocupadíssima com esses inquéritos do Supremo.

MC O que te incomoda, deputada?
JP 
Esses inquéritos são questionáveis sob o ponto de vista jurídico. Talvez, para tentar fazer uma frente a essas estranhezas todas do presidente, estão tolerando medidas incorretas. Por exemplo: instaurar o inquérito e escolher o relator. Como o ministro [Dias] Toffoli escolheu o Alexandre [de Moraes]. Segunda coisa: o ministro Alexandre, que foi a pessoa ameaçada pela Sara Winter, determinar a prisão dela. Como é que pode a vítima mandar prender? Outro exemplo: inquéritos sem a participação da Procuradoria Geral da República e sem a participação dos defensores. São muitas incorreções. Agora todo mundo acha o máximo as pessoas serem investigadas por post no Twitter, mas nada garante que amanhã não vai ser você o investigado. Isso é bem delicado. Ou é liberdade de expressão para todos ou não é para ninguém. Eu prefiro que seja para todos. É melhor a gente tolerar os excessos, criticar e se manifestar, mas não entrar nessa vibe de criminalizar discurso porque todo mundo perde com isso.

JP Tudo depende de como caminhará a doença. Essa reabertura responderá. Se houver um surto, não sei nem como seriam as campanhas, como os candidatos iriam às bases… Por outro lado, entendo a preocupação do ministro [Luís Roberto] Barroso de criar o precedente de adiar a eleição. Medo de amanhã alguém querer estender mandato como aconteceu na Venezuela. Então a gente vai ter que encontrar aí um meio termo entre a democracia e a preservação da saúde.

MC Já sabe em quem vota para a prefeitura?
JP
 Não sei. Já até falei com o partido, voto no candidato que julgar ser o melhor para a cidade.

MC Não vota na Joice Hasselmann, a candidata do PSL?
JP 
Difícil, não?

Fonte: Marie Claire

Este post tem um comentário

  1. Daniel Fernanddes

    Amo as suas entrevistas!!! Sempre útil ou interessante, aliás mandando a real. Ademais, o povo brasileiro vem produzindo picuinhas, sentidos que devem ser ressignificados uma vez que pela ética da responsabilidade e entendida como fundamental a qualquer prática social, educativa e/ou científica, não se pode mais acreditar que seja possível agir em vácuos, pressupondo que qualquer ação deve, sim, gerar consequências e interpretações para aqueles que estão no nosso entorno e quem sabe um choque de realidade. Por fim “É melhor a gente tolerar os excessos, criticar e se manifestar, mas não entrar nessa vibe de criminalizar discurso porque todo mundo perde com isso.”

Deixe uma resposta